Carta aberta ao Rio de Janeiro

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Carta aberta ao Rio de Janeiro

Carta ao Rio de Janeiro

Esta carta foi escrita pro mim durante uma viagem ao Caribe Colombiano.

Rio de Janeiro,

Já estamos juntos há mais de 44 anos… A verdade é que, por incrível que possa parecer, só nos últimos anos te conheci mais profundamente, e sei que ainda há muito para te explorar. O que é muito bom, pelos desafios e pelas surpresas do dia a dia, tão essenciais em qualquer relação – e não seria diferente com a nossa.

Nunca te odiei… Sempre soube separar o racional do amor e da paixão que sinto por ti. Tá bom, confesso que isso é muito difícil, mas eu tento! Sou teu maior crítico, mas, ao mesmo tempo, sou também o teu defensor. Sou incapaz de acusar-te! Defendo-te, ferozmente, de todos aqueles que falam mal de ti.

E o nosso caso de amor? Neste momento, estou distante 5.000 km de ti, mas a tua lembrança não sai da minha cabeça. Vou te falar uma coisa, mas, por favor, não fiques com ciúmes, tá bom? Estou de paquera com uma linda ilha no Caribe colombiano… A água azul em sete tons diferentes é a sua maior atração, realmente encantador, para não dizer sedutor. Confesso que pensei, só por um segundo, em viver aqui… Mas, relaxa, nada para te preocupar, apenas um breve e louco devaneio… Que poder tens sobre mim, Rio de Janeiro? Esse magnetismo que atrai meu pensamento, que me faz viajar na velocidade da luz, descendo parte da América Central, pela Colômbia, pelo Amazonas e por todos os estados que separam-te, fisicamente, de mim…Só quem ama como eu, só quem é realmente apaixonado, sabe por que acontece isso.

Em uma relação saudável, é preciso ter confiança, não é? A confiança que tenho em ti é tanta, que em nenhum momento sinto ciúmes quando um compositor te canta em versos e diz que tu foste a sua fonte de inspiração. Também não fico enciumado quando um pintor desenha as tuas curvas e cores. Muito pelo contrário, sinto-me envaidecido, aquele orgulho quase infantil que não faz mal a ninguém. Como não sei compor e nem pintar, permito que outros apaixonados te homenageiem.

Nunca consegui ficar tanto tempo longe de ti. Já morei em São Paulo por quase 6 anos, mas raros foram os finais de semana em que ficamos separados. Naquela época, passagem de avião era só para a classe média alta. Estava apenas começando a minha vida profissional, mas, mesmo assim, honrei a minha promessa de sempre ficar perto de ti. A Rodovia Presidente Dutra TAMBÉM sabe muito bem dessa história. Na realidade, foi testemunha, quilômetro a quilômetro, de sentimentos de alegria e de saudade. A dicotomia de sentimentos era definida pela minha direção, pelo sentido da viagem. Entre as minhas andanças, conheci várias cidades, vários países e sempre me questionei – e ainda me questiono – se te trocaria. Acho que faço isso como exercício de fidelidade.

Nova Iorque me encantou, mas é muito fria e o Central Park não chega nem perto da beleza das tuas matas. São Francisco foi páreo duro…que linda cidade! Fiquei balançado, mas rapidamente aprumei.

Buenos Aires é muito charmosa e romântica, realmente encantadora, mas prefiro as tuas músicas e a tua felicidade, o tango é meio nostálgico.

Orlando? Nem te preocupes, é muito artificial! Para ser sincero, o teu extinto Tivoli Parque, por mais antigo que fosse, ao lado da linda Lagoa Rodrigo de Freitas, era incomparável… Coisas de apaixonado!

A Califórnia tem lindas e belas cidades, mas sabe o que lhes falta? O majestoso Atlântico! Nunca tive intimidade com o Pacífico e, para ser sincero, nem quero ter.

E no Brasil? Quantos lugares encantadores! Talvez, nessa vida, não chegue a conhecer nem 1% das suas belezas, mas nenhuma das que já conheci chegaram aos teus pés. E, se existirem outras vidas, torcerei para nascer e renascer no Brasil, mas obviamente bem aí, juntinho a ti.

Estive pensando sobre esse magnetismo que atrai cariocas, como eu, a ti… Sabe aquelas tartaruguinhas que nascem em uma praia, na imensidão do nosso litoral? Então, a tartaruguinha que cresce viaja o mundo, aparece em uma praia ou outra a milhares de quilômetros de distância de onde nasceu, mas, quando chega a hora de completar o ciclo reprodutivo, volta instintivamente para a mesma praia em que nasceu. Pronto! Eu sou essa tartaruga e meus instintos sempre me trarão de volta para ti.

Mas chega de falar da minha paixão, pelo menos por agora, ok? Preciso falar sobre os teus problemas – e olha que não são poucos. Em uma relação sadia, é preciso separar as coisas. É preciso enxergar os defeitos. Escondê-los e não admiti-los os tornam maiores e impossíveis de serem solucionados.

Andam te maltratando, não é? E já faz tempo… Maltratam-te a corja de políticos que te utilizam em um escrachado esquema de poder.

Maltratam-te todos aqueles que nasceram ou permaneceram junto a ti e, bem longe, no centro do Brasil, sujam o teu nome na mesma entrelaçada trama que faz de ti e de teus filhos reféns da nefasta corrupção.

Maltratam-te aqueles que poluem os teus rios, derrubam as tuas matas e sujam as tuas ruas. Aqueles que não se lembram da tua história, das tuas conquistas e, principalmente, do quanto foste importante para a história do nosso país.

Maltratam-te aqueles que sujam o teu solo de vermelho, a cor que personifica a violência nos teus arredores. Foste refém de tantos governos que nunca souberam te valorizar, muito pelo contrário, souberam apenas explorar-te, sem nada te dar em troca e nem aos teus filhos.

E tu? Sofres e resistes com dignidade, afinal, todos eles que te maltrataram passaram e passarão, e tu permaneces, sem contudo perder a esperança de que as próximas gerações te valorizarão e te respeitarão.

Tu sabes que a principal solução para os teus problemas é a educação. Sim, a educação que fora negligenciada por aqueles que tramam no perverso jogo do poder e de dominação.

Daqui a alguns meses, receberás carinhosamente atletas de todo o mundo. Infelizmente eles e o mundo perceberão as tuas rugas de preocupação, causadas por todos aqueles que não te tratam bem. E tu, mesmo assim, receberás a todos de braços abertos, bem lá de cima do Corcovado, e aqueles mais sensíveis perceberão o teu pedido de socorro.

Rio de Janeiro, acredita! Assim como eu, muitos te amam com tamanha intensidade e lutarão, cada um a seu modo, para te proteger, pois, como disse no início desta carta, sou incapaz de julgar-te.

 

Com muito amor,

Marcelo Marques, um carioca apaixonado

Sobre o Autor

marcelomarques administrator

Professor, Palestrante e Consultor. Autor de livros na área de gestão e gestão pública. Co-Fundador do Concurso Virtual, umas das maiores empresas de EAD vendida ao Grupo UOL. Fundador do 4YouArt, consultoria de Identidade Visual. Co-Fundador do Lead Automático, startup geradora de Plataforma de Marketing Digital.

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